Borderlands e a tristeza de ver uma franquia morrer

Eu não cresci com videogames. Não tinha console, não tinha PC, não tinha nada disso. Enquanto a galera da escola trocava figurinha sobre Pokémon ou discutia qual era o melhor personagem do Street Fighter, eu estava do lado de fora dessa conversa. Não por escolha. Era simplesmente o que tinha.

Quando finalmente comprei meu primeiro computador, com 23 anos, chamar aquela máquina de “PC Gamer” seria uma piada de mau gosto. Era uma torradeira com tela. Processava calor melhor do que qualquer outra coisa. Mas foi nele, naquele troço fraco e barulhento, que eu descobri o que é ser gamer de verdade.

Um pacote com três jogos pelo preço de um

Descobri a Steam, fui fuçar as promoções e encontrei um pacote: Borderlands 1, Borderlands 2 e Borderlands: The Pre-Sequel, tudo junto, por um preço que eu mal podia acreditar. Comprei sem pensar duas vezes. Como eu ia recusar uma oferta dessas?

Todo mundo me disse pra começar pelo 2, que era o melhor, o mais polido, o que eu precisava jogar. Fui teimoso. Comecei do começo. Borderlands 1, resolução 1024×768, uns 20 fps quando o jogo não estava engasgando, e eu ali, de madrugada, completamente perdido naquele mundo.

Oito horas depois eu ainda estava jogando. Sem parar. Sem perceber o tempo passar. E quando finalmente fechei o jogo naquela madrugada, eu entendi uma coisa que mudou tudo pra mim: como eu tinha vivido a minha vida inteira sem isso?

O cara que dropou loot e virou amigo

Depois de zerar o primeiro, fui pro Borderlands 2. E foi ali que aconteceu uma das coisas mais inesperadas e mais importantes que um jogo já me deu.

Eu estava jogando em sala pública sem saber, porque não tinha configurado direito. Do nada, alguém entrou na minha partida. Sem avisar. Um desconhecido completo. Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, essa pessoa simplesmente começou a dropar as melhores armas do jogo no chão, uma atrás da outra, e digitou no chat uma coisa simples: “bem-vindo a Borderlands”.

Não era sobre trapacear. Não era sobre ficar poderoso mais rápido. Era sobre um gesto humano dentro de um jogo. Era sobre alguém que um dia também foi novato e quis fazer diferente com o próximo. Esse cara virou meu amigo. E a gente fala até hoje, quase dez anos depois. Pensa nisso. Um estranho num jogo que eu tinha acabado de comprar, e essa pessoa está na minha vida até agora.

Só quem é gamer entende o que isso significa. Não é exagero, não é romantização. É o poder real que os videogames têm nas relações humanas.

O anúncio que me fez não desistir

Passei anos feliz dentro do universo Borderlands. Era um lugar que eu conhecia, que eu gostava, que tinha gente que eu chamava de amigo. E então veio um período muito ruim na minha vida. Um daqueles momentos em que a gente está tão no fundo que qualquer coisa parece grande demais pra aguentar.

Foi exatamente nessa época que a Gearbox anunciou Borderlands 3.

Parece idiota, eu sei. Mas esse anúncio me deu um motivo concreto pra segurar. Eu precisava jogar aquele jogo. Aquilo era meu. Eu tinha investido anos naquela franquia, tinha amigos por causa dela, tinha memórias reais. E agora tinha uma promessa de que ia ter mais.

Não é exagero dizer que Borderlands 3 me ajudou a atravessar um momento que eu não sabia se ia conseguir atravessar.

O começo do fim

Minha expectativa estava nas alturas. E era impossível não estar, dado tudo que Borderlands representava pra mim. O resultado foi um choque de realidade doloroso.

Borderlands 3 é um jogo ok pra quem nunca tocou na série. Tem mecânicas sólidas, o loop de loot ainda funciona, os tiroteios continuam satisfatórios. Mas pra quem estava ali desde o começo, pra quem conhecia cada personagem como se fossem velhos conhecidos, o jogo foi uma decepção enorme. A história parecia escrita às pressas. As decisões da Gearbox ao longo de todo o ciclo de vida do jogo foram desconcertantes. A alma que existia nos primeiros jogos tinha sumido em algum lugar entre o desenvolvimento e o lançamento.

E o que viria depois só confirmaria que não foi uma fase ruim. Foi o começo de um padrão.

New Tales from the Borderlands foi constrangedor. Wonderlands foi dispensável. E então a Gearbox lançou Borderlands 4, anunciado com pompa pelo CEO como um “game premium para gamers premium”, uma frase que por si só já diz muito sobre como a empresa enxerga o público. Um jogo que exige hardware de ponta sem nenhuma justificativa visual real, porque os gráficos mal passam o que o 3 já entregava. Personagens sem nenhuma substância. Um “mundo aberto” que parece estranho e fora do lugar, como se a Gearbox tivesse tentado seguir uma tendência sem entender por que ela funciona em outros jogos. E as babaquices da empresa em volta do lançamento, que vieram acompanhar tudo isso como brinde.

O que a gente perde quando uma franquia morre assim

Não é só sobre jogos ruins. Jogos ruins sempre vão existir, todo mundo lança algo que não funciona em algum momento. O que dói de verdade é outra coisa.

É ver algo que foi importante pra você ser destruído devagar, decisão por decisão, por pessoas que claramente não entendem mais o que fez aquilo ser especial. É perceber que a franquia que um dia te deu amigos, que te fez passar horas feliz numa máquina fraca que mal rodava o jogo, que te deu um motivo pra continuar num momento difícil, agora é gerenciada como um produto qualquer. Uma propriedade intelectual que precisa gerar receita, não uma experiência que precisa significar alguma coisa pra quem joga.

Tem uma diferença grande entre um jogo que decepciona e uma franquia que abandona as pessoas que a construíram.

Borderlands foi construído por uma comunidade de pessoas que achavam aquilo incrível. Jogadores que dropavam loot pra desconhecidos e viravam amigos pra vida. Gente que passava a noite em sessões intermináveis e não conseguia parar. Esse é o patrimônio real da franquia. E assistir tudo isso ser desperdiçado é uma tristeza que não tem muito jeito de explicar pra quem não viveu.

Mas quem viveu sabe exatamente do que eu estou falando.

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