Teve um dia que eu liguei o PC, olhei pra tela e pensei: isso aqui parece o setup de alguém que quer impressionar uma pessoa que nunca vai aparecer. Widgets por todo lado, um tema que eu tinha passado horas ajustando, extensões no navegador que eu nem lembrava mais pra que serviam. Tudo funcionando, tudo configurado. E eu completamente entediada com tudo aquilo.
Não foi uma decisão dramática. Não acordei um dia iluminada querendo “simplificar minha vida”. Foi mais lento do que isso — um cansaço que foi acumulando até o ponto em que remover uma coisa começou a parecer mais satisfatório do que adicionar.
O vício de configurar que nunca termina
Se você usa Linux há algum tempo, provavelmente sabe exatamente do que estou falando. Existe uma fase no começo — e ela pode durar anos — em que você passa mais tempo configurando o sistema do que de fato usando ele. Novo tema, novo conjunto de ícones, outro plugin pro Plasma, mais uma extensão no Firefox porque essa promete salvar sua vida de alguma forma. É quase um jogo em si. Você fica fazendo tuning infinito sem destino.
Eu passei por isso bastante. No Windows, no Fedora, e agora no CachyOS — que aliás é onde estou agora e onde finalmente consegui encontrar um equilíbrio que faz sentido pra mim. Mas antes de chegar aqui, tinha momentos em que o sistema estava tão carregado de customização que qualquer coisa que eu tentasse fazer virava um exercício de navegar entre as minhas próprias camadas de personalização.
O problema não é customizar. O problema é quando a customização deixa de ser expressão e vira performance. Você não está mais ajustando o sistema pra você — você está montando um cenário pra uma versão de você que é mais produtiva, mais organizada, mais impressionante. E essa versão nunca chega.
Produtividade como ansiedade disfarçada
Tem uma coisa que a internet de produtividade faz muito bem, que é te convencer de que você está sempre a um app de distância de se tornar uma pessoa melhor. Mais um widget de tarefas, mais uma ferramenta de notas, mais um sistema de gestão de tempo — e então finalmente você vai conseguir tudo que quer. Eu caí nessa armadilha várias vezes.
O que ninguém fala abertamente é que boa parte disso é ansiedade com uma interface bonita. Você não está sendo produtivo — você está procrastinando de uma forma que parece responsável. Instalar o Obsidian, configurar vault, criar templates, assistir vídeos sobre métodos de organização de notas… e no final do dia não ter escrito nada que importava.
Tinha mais sistemas pra gerenciar minha vida do que vida pra gerenciar.
Em algum momento eu parei, olhei pro meu setup e percebi que eu estava dedicando energia mental pra manter coisas que deveriam estar trabalhando pra mim. Não era leveza. Era burocracia digital que eu mesma tinha criado.
O que eu comecei a tirar
Não virei minimalista de um dia pro outro e não tenho pretensão de virar. Tenho 4 mil horas em Warframe — eu claramente não sou uma pessoa que foge de complexidade quando gosto do que estou fazendo. A diferença é que o Warframe me dá prazer genuíno. A maioria das customizações do meu setup não estava dando mais.
Então comecei devagar. Desinstalei extensões do navegador que eu usava uma vez por mês na melhor das hipóteses. Tirei widgets do desktop que eu olhava por hábito mas nunca realmente precisava. Parei de usar três apps de notas ao mesmo tempo e escolhi um só. Simplifiquei o painel do Plasma pra ter o que eu de fato uso, não o que parece legal em screenshot.
E sabe o que aconteceu? Nada dramático. O sistema continuou funcionando. Mas ficou mais… meu. Menos montado, mais habitado.
Tecnologia que respira
Tem uma coisa que eu sinto falta da internet mais antiga — e que de vez em quando ainda encontro em cantos específicos — que é a sensação de que as pessoas usavam tecnologia pra fazer coisas que amavam, não pra otimizar a experiência de fazer essas coisas. Alguém criava um site feio porque queria falar sobre uma banda. Alguém passava horas num fórum porque gostava do assunto, não porque estava construindo autoridade em nicho.
Tem algo nessa relação que eu quero recuperar. Não a estética necessariamente — amo meu KDE Plasma bonito e bem configurado — mas o espírito. Usar a tecnologia como meio, não como fim. Jogar porque o jogo é bom. Configurar o sistema quando faz sentido, não porque é o que se faz. Escrever porque quero, não porque o calendário editorial mandou.
O minimalismo digital que encontrei não é sobre ter menos. É sobre ter o suficiente pra que a tecnologia saia do caminho e deixe as coisas acontecerem. Quando abro o computador agora, a fricção é menor. Não fico navegando entre dez coisas pra chegar na que quero. Simplesmente… começo.
Não é uma chegada, é um ajuste contínuo
Seria desonesto dizer que resolvi isso de vez. Ainda tenho momentos em que vejo alguma customização interessante e fico tentada a experimentar. O instinto de mexer no sistema não some — e honestamente, acho que não precisa sumir. Faz parte de quem eu sou como usuária de Linux.
Mas mudou o critério. Agora, antes de adicionar alguma coisa, eu me pergunto se aquilo vai fazer algo que eu realmente preciso ou se só vai existir porque parece legal ter. É uma pergunta pequena, mas muda bastante o resultado.
O setup ideal não é o mais impressionante. É o que some de vista quando você está fazendo algo que importa.

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